domingo, 22 de abril de 2012

Despedida

Quando eu for emboora (post de baixo), deixarei uma cartinha para papai mais ou menos assim.

Fui embora, em busca da minha vida, tudo aquilo que eu não pude fazer porque você não deixou e que me fez muita falta, você não deve fazer a menor ideia de como essa proibição toda fez em mim, e das coisas que eu fiz por esse motivo. É um pedaço que falta e que eu fui buscar.
A essa hora já devo estar muito longe, talvez em outro continente e você nada poderá fazer, não é que eu não vá voltar, voltarei, só que daqui 9 meses, tempo de contrato.
Os motivos que me levaram a isso são diversos e não só a vida que eu perdi enquanto estava muito ocupada trancada em casa.
Sou uma pessoa, tenho opinião, tenho vontades, tenho direitos, tenho personalidade e tenho direito a uma coisa que nunca tive, e talvez esse seja o maior motivo, privacidade. Acha que eu não sabia que meu quarto era inteiro fuçado? Como se fosse um cão farejador procurando algo. Até minha ultima gaveta era fuçada e se lá houvesse uma agulha, seria encontrada. Eu sabia a cada vez que meu guarda roupa era aberto, a cada vez que entravam no meu quarto, desenvolvi medidas para saber, eu media com régua cad coisa que deixava. Depois é claro a falta de respeito com as coisas que eu fazia dentro de casa. A casa que eu limpava e que no mesmo dia encontrava-se uma zona. Era meia jogada na sala, fio-dental jogado em qualquer lugar, sapatos e mais sapatos espalhasdos no quarto, o lixo que nunca era jogado dentro do lixo, a louça que não parava de aprecer na pia enquanto eu tentava lavar tudo, a sua cama que eu tinha que arrumar mesmo depois de tudo pronto só porque você tinha dormido até ás três horas da tarde. A falta de reconhecimento por tudo que eu fazia. Nunca quis elogios ou uma medalha por fazer o que eu fazia mas também não precisava humilhar.
Você precisa entender que eu não sou sua secretária, eu não sou sua empregada! Acho sim que tenho o dever de contribuir para a limpeza e organização da casa, e a unica coisa que eu queria era respeito e colaboração para que tudo não virasse uma zona no final do dia. Chegou a dizer para a psicóloga que eu não fazia nada em casa, aí eu vi o quanto você era doente. Nunca tive a coragem (porém muita vontade) de de fato não fazer nada! Deixar a zona que você fazia só pra quem sabe  você poder perceber a diferença.
Tinha que dar explicações de tudo, tudo e qualquer coisa e você deve estar dizendo "ah! mas era meu dever de pai" sinto muito, você exagerou.
Tenho sede das coisas que não vivi, da privacidade que eu não tive. Cada vez que via minhas coisas mexidas sentia-me violada, era tomada por uma indignação um sentimento tão forte, tão ruim...
Isso não quer dizer de maneira alguma, que tivesse algo a esconder nas minhas coisas. Mas tenho certeza que se suas coisas fossem mexidas a esse ponto e você precisasse prestar contas de tudo, sentiria-se assim também.
É claro que eu queria fazer uma faculdade, acontece que ainda não me encontrei, não sei o que quero. E isso é tão dificil de se etender assim? Há por aí muitos advogados sem emprego, como formandos em qualquer outro curso, um diploma não resolveria minha vida, mas te explicar tudo isso era impossivel. Aliás, te explicar qualquer coisa havia uma dificuldade extrema, foi quando decidi simplismente não falar, porque não valia a pena. VOcê precisa aprender a escutar e escutar de verdade, entender que a sua verdade não é absoluta e respeitar a as ideias e pontos de vista dos outros.
Eu perdi a paciencia em tentar explica-lhe qualquer coisa, não valia a pena e eu era tratada com grosseria. Essa é uma outra coisa a qual preciso falar.
Seu humor regeu minha vida até esse dia. (Não falarei por terceiros porque ninguém admite mesmo) Voltar para casa sempre envolvia uma tensão muito grande, pois nunca sabia como você estaria naquele dia. Havia dias em que você me recebia com um abraço, dias em que você não falava comigo e nem me olhava e dias em que começava de grosserias me ofendia, me magoava... E esses, infelizmente, foram a grande parte dos dias. Reclamava de tudo, xingava, brigava, por nada! Isso nos machuca e você não tem a menos ideia da dimensão. E de como 'eu' sofria, de como me afetava em todos os campos. Foi aí que pare de demonstrar sentimentos e descobri algo em mim que se chamava frieza, se eu fosse me importar com cada coisa que você me dizia, estaria internada há tempos. Aprendi a filtrar e tampar os ouvidos ou desviar a atenção para não te ouvir, e encontrar em mim motivos para continuar.
Tomei a decisão de partir, em Novembro do ano passado, assim que descobri que não tinha passado na Federal. Desde então, tudo que fiz foi em pról de ir embora. Os trabalhos, o dinheiro guardadao, o inglês, o corte de cabelo, a progressiva, a cor do cabelo... É, até isso.
 De qualquer forma, estou indo para a minha vida. Não levarei mágoas. Espero que você possa mudar e ser uma pessoa melhor levando em conta tudo isso que deixei registrado.
Tenho certeza que essa será uma experiência extaordinária para mim e contará pontos num futuro curriculo. Eu voltarei e se quiser me aceitar, isso fica a seu critério.
Não contei a ninguém, e nem poderia. Tive que guardar todo esse tempo, tudo para mim. Não podia dar a ninguém a chance de estragar meus planos.
Você que dizia que eu não ia atrás das coisas, está aí... Fui atrás de tudo, cursos, dinheiro, passaporte...
Até breve, familia.

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